Isso (tudo) é ciência!

A Hematologia enquanto ciência é apaixonante. Cada um que resolve navegar por esse incrível mar descobre que cada vez mais sabe menos. Isso não é exclusividade da Hematologia, isso é a ciência. O astrofísico americano Neil deGrasse Tyson afirmou que “a ciência atua na fronteira entre o conhecimento e a ignorância sem medo de admitir não sabemos. Não há nenhuma vergonha nisso. A única vergonha é fingir que temos todas as respostas.” Aliás, uma das poucas certezas que nós temos é que somos ignorantes em relação a tudo o que há e a medida que vamos aprendendo e pesquisando, um pouco confirmamos que éramos de fato muito ignorantes.

A Hematologia e os hematologistas vivenciaram nos últimos anos avanços extraordinários, consequência de muito esforço, dedicação, estudos e, claro, muitas pesquisas científicas. Esse conhecimento acumulado levou a resultados que até pouco tempo (digo pouco tempo mesmo, coisa de menos de 1-2 décadas) eram considerados fantásticos e hoje são corriqueiros.

Photo by National Cancer Institute on Unsplash

Vamos tomar por exemplo uma patologia hematológica chamada Leucemia Mieloide Crônica (LMC). A LMC é uma doença maligna, de origem clonal, portanto. É um tipo de câncer da medula óssea onde ocorre descontrole desse órgão e começa a proliferação descontrolada de células do sangue semelhantes aos neutrófilos. Essas células em quantidade aumentada passam a circular em grande volume e podem acumular em órgãos como baço, fígado e, menos comumente, nos gânglios linfáticos. A ciência passou a observar que pacientes portadores de LMC possuíam uma alteração que era evidente em exames genéticos (cariótipo). Essa alteração foi inicialmente chamada de Cromossomo Philadelphia (Ph1), pois foi reconhecida por citogeneticistas da Filadélfia, e, posteriormente, foi reconhecida que era fruto de uma translocação cromossômica. Translocação cromossômica pode ser explicada como a troca de “pedaços” de um cromossomo com outro e no caso do cromossomo Ph1 era a troca de “pedaços” do cromossomo 9 com o 22, t(9;22). Essa foi reconhecidamente a primeira vez que era comprovadamente identificado uma alteração genética que provocava um câncer. Sabia-se que o câncer é uma doença genética em sua origem, mas o achado da relação causal do cromossomo Ph1 com a LMC foi apenas a resposta que acabou gerando diversas outras perguntas. Dentre essas perguntas estava a seguinte: se descobrirmos o gene de cada doença maligna é possível tratar sem tantos efeitos adversos como são as quimioterapias?

Perguntas são estímulos para cientistas e a busca por respostas é o isotônico que hidrata nesta longa corrida. Uma das respostas foi alcançada alguns anos depois quando sucessivos trabalhos de pesquisas mostraram que aquela alteração cromossômica levava a produção de uma proteína mutante que ficava “ativa” mesmo sem nenhum estímulo chamada tirosino-cinase BCR-ABL1. Outra pergunta: se inibir essa proteína controlo a doença? Ou mesmo pode curá-la? A partir daí surgiram medicações que atuariam exatamente nessas proteínas, como se fossem remédios para um “alvo” específico, que na situação da LMC era a proteína BCR-ABL1. Essas medicações transformaram o tratamento da LMC que antes era tratada com medicações extremamente tóxicas ou transplante de células tronco. Essa última modalidade de tratamento curava, porém tinha muita toxicidade e o inconveniente de nem sempre haver doadores disponíveis.

Photo by National Cancer Institute on Unsplash

Atualmente portadores de LMC raramente são encaminhados para transplante e aqueles que respondem o tratamento, a maioria, possuem, segundo estudos atuais, sobrevida semelhante à população não doente. Uma doença invarialvelmente fatal sem o devido tratamento, tinha um tratamento bastante difícil e com opções limitadas, que muitas vezes não impediam a piora do paciente que não raramente evoluíam para uma doença ainda mais difícil de tratar, a leucemia mieloide aguda. Nos dias de hoje o paciente pode levar a vida normal, raramente impede exercer o trabalho e o tratamento é simples, pois são medicações orais. Claro que alguns casos os portadores de LMC em tratamento possuem efeitos adversos, como qualquer medicação pode ocasionar, outros poucos, infelizmente, não respondem bem à terapia, mas a ciência não para nas incessantes buscas de respostas e certamente esses pacientes estão na mente de diversos cientistas.

Retorno ao astrofísico Neil deGrasse Tyson que recentemente foi apresentador do novo seriado Cosmos, o primeiro foi apresentado por Carl Sagan, no último episódio daquele programa aponta alguns fundamentos da ciência que devemos sempre considerar, mas na verdade deve ser fundamentos para todos nós enquanto seres pensantes a fim de não sermos ludibriados. São mais ou menos esses:

  • Questione a autoridade, nenhuma ideia é verdadeira porque eu disse, inclusive eu;
  • Pense por si mesmo
  • Questione-se
  • Não acredite em nada somente porque você quer, pois não é isso que torna algo verdadeiro. Se uma ideia preferida não passar por um teste bem elaborado, essa ideia está errada;
  • Siga a prova onde quer que ela leve, sem prova, sem julgamentos;
  • Você pode estar errado, grandes cientistas estiveram errados, pois eles eram humanos, Einstein, Newton, entre outros.

Com a LMC foi assim e ainda continua sendo, não é diferente com outras doenças do sangue, ou melhor, da medicina de modo geral.

Deixo aqui uma sugestão de leitura e da série que eu me referi anteriormente. O livro de Carl Sagan, também chamado Cosmos vai além de uma leitura que aborde apenas astronomia, pelo contrário utiliza-se de muitos conhecimentos sobre aquela ciência para mostrar como somos grandiosos e ao mesmo tempo pequenos se comparados ao gigantesco universo. Na verdade é um livro sobre a humanidade, a Terra e o universo.

Até breve…

Publicado por Hemato na Web

Esse o Canal de Hematologia - Hemato na Web, dedicado a divulgação científica e apresentação de temas interesaantes e relevantes que envolvam a Hematologia ou a Medicina em geral. O conteúdo é editado por mim, que sou hematologista e mestre em ciência da saúde.

Deixe um comentário