Grupos Sanguíneos e COVID-19

Vem sendo noticiado na mídia que portadores de determinado grupo sanguíneo teria chance maior de contrair o vírus. É verdade? Há um risco maior de morte?

Vamos conversar um pouco sobre isso.

Vírus COVID-19

Esse questionamento iniciou a partir de artigo (link abaixo) que mostrou os resultados de um estudo com 2173 pacientes evidenciando que aqueles que eram do grupo sanguíneo A tinham um risco maior de adquirir COVID-19 comparativamente aos pacientes do grupo sanguíneo O.

Reprodução da capa do artigo

Os próprios autores do estudo pedem cautela na interpretação das informações publicadas e enfatizam que são dados precoces.

Antes de fazer alarde dessa informação devemos ter ideia que a distribuição dos grupos sanguíneos na população por todo o planeta não é homogênea. Basta uma pesquisa rápida na Wikipedia, por exemplo, que podemos notar a distinta distribuição de grupos sanguíneos em cada local no mundo. Isso é uma informação importante que deve ser considerada nos casos de inquéritos em que se avalia se a distinção de determinado achado se deve pelo grupo ou simplesmente que o grupo é mais representativo. Isso costuma ser “reequilibrado” pela estatística.

Dados de Grupos sanguíneos por país. Fonte: Wikipedia
Gráfico com comparação de grupos sanguíneos entre populações. Notamos que no Brasil o grupo O+ é ligeiramente superior ao A+ e o grupo AB- é o mais raro.

Relatos adicionais de outros autores confirmaram o achado inicial dos chineses, porém acrescentou-se que não houve distinção no comportamento da patologia uma vez o paciente tenha sido infectado.

Artigo posterior confirmando o achado de diferenças entre grupos sanguíneos nas manifestações do COVID-19

Outros autores confirmaram o achado e buscaram explicações. Sabe-se que as proteínas ABO(H) que dão origem aos grupos sanguíneos não são expressadas exclusivamente nas hemácias, ou seja, a presença dessas proteínas em células do endotélio vascular poderiam proteger os pacientes do grupo não-A da coagulopatia.

Sabe-se que dadas doenças são mais comuns em determinados grupos sanguíneos, como é o caso da malária cerebral que é menos comum em portadores no grupo O. Outro exemplo é o nível de Fator de Von Willebrand (tem postagem sobre isso também) para definir como deficiência é distinto entre grupos sanguíneos.

CAUTELA

Sempre que há algum estudo ou relato científico apontando distinção da presença de um achado comparando-se uma característica específica, aqui no caso o grupo sanguíneo, devemos ter muita CAUTELA. Isso porque pode criar a falsa sensação de que não faz parte de um grupo que tem risco, o que sabemos que não é dessa forma que funciona na Medicina. Os estudos científicos quando apontam que um problema é mais comum em um segmento X em comparação aos representantes do grupo Y, pois é 20% mais comum no primeiro isso pode traduzir como probabilidade 20% maior, porém não significa risco zero no que é menor. Por isso uma advertência é considerada em um estudo que reproduziu o achado de maior risco da doença no grupo A, mas reforça que isso não deve ser motivo para “relaxamento” do grupo O.

“…, contudo pessoas com grupo O não devem considerar o vírus de forma relaxada e deve ainda tomar precauções a fim de evitar aumento do risco de infecção.”

Por fim, devemos ter também em mente que nada na Medicina e na ciência como um todo é definitivo, pois sempre há estudos mais novos que tendem a confirmar ou questionar um achado anterior, como Albert Einstein afirma ” A ciência, como um todo, não é nada mais do que um refinamento do pensar diário.” E assim segue um trabalho atrás de outro a fim de se buscar possíveis causas das diferenças. Daí surgem hipóteses que anticorpos Anti-A, presentes em indivíduos do grupo sanguíneo O e B poderiam ser um fator protetor. Outro estudo, por sinal avaliou 1559 pacientes testados, dos quais 682 foram positivos para COVID-19, e confirmou o que outros apontaram da maior probabilidade em indivíduos do grupo A, porém não mostrou maior risco de entubação e morte nesse grupo comparativamente aos demais.

Artigo que mostra a não relação de mais entubação e mortes quando comparados os grupos sanguíneos.
“Nós não identificamos quaisquer relações significativas entre os grupos sanguíneos e entubação ou morte devido ao COVID-19”

Uma coisa é certa

Não há tratamento definitivo comporvadamente eficaz para o COVID-19. Ainda deverão ser publicados muitas pesquisas e estudos sobre essa patologia, uma doença nova, cuja evolução não é completamente conhecida. Dessa forma, isso reforça a necessidade de todos nós tomarmos todas precauções a fim de se evitar contaminação.

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Tem alguma ideia que deveria ser tema aqui? Sugira.

Publicado por Hemato na Web

Esse o Canal de Hematologia - Hemato na Web, dedicado a divulgação científica e apresentação de temas interesaantes e relevantes que envolvam a Hematologia ou a Medicina em geral. O conteúdo é editado por mim, que sou hematologista e mestre em ciência da saúde.

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