Leucemia mieloide crônica: um paradigma de evolução “Made in Biologia Molecular”

Quando um defeito genético adquirido da célula tronco leva a proliferação anormal de células sanguíneas essa é a Leucemia Mieloide Crônica, também chamada de LMC, mas que doença é essa? Como é o diagnóstico e evolução?

Introdução

É um tipo de leucemia caracterizado pela translocação recíproca entre cromossomos 9 e 22 (Cromossomo Filadélfia). Isso leva a formação de uma oncoproteína de forma constitutiva chamada BCR-ABL1. Estima-se que ocorrem 10-15 milhões de casos por ano e não há grandes diferenças entre as regiões e etnias.

É importante relatar que houveram modificações significativas após a introdução de inibidores da atividade tirosino cinase. Esse avanço somente foi possível devido ao acúmulo de conhecimento oriundo de pesquisas principalmente da área genética e da biologia molecular.

Considerada atualmente uma patologia crônica que necessita tratamento prolongado objetivando a resposta profunda a LMC possui sobrevida muito próxima das pessoas sem a doença. O grande objetivo atual do tratamento é permitir uma adequada qualidade de vida aos portadores da doença.

Evolução

A LMC possui uma característica peculiar que é a possibilidade de evolução à fases bem distintas. A maioria dos pacientes são diagnosticados no que se denomina como fase crônica, onde a principal característica é o aumentos das células que são indistinguíveis das células normais. Pode ocorrer elevação de células mais jovens, mas os blastos não são comumente notados. A fase posterior ao que denomina-se como fase crônica é a chamada fase acelerada. Essa se caracteriza pela presença maior de células mais jovens, a deterioração clínica do paciente com surgimento de sintomas e, quando está em tratamento pode começar a apresentar falha na resposta. Por fim a última fase é caracterizada pela presença de células mais imaturas e elevação da contagem de blastos, daí o nome de fase blástica. A presença desse último tipo de célula pode fazer que a apresentação clínica do paciente seja similar a uma leucemia aguda. Nem sempre é possível flagrar a evolução em fases distintas, ou seja, o paciente pode se apresentar em qualquer uma das fases sem ter sido notado previamente a presença de fase anterior. Felizmente o tratamento atual tem permitido a redução da evolução da LMC em fases mais avançadas.

Sintomas

A sintomatologia comumente encontrada naqueles pacientes ao diagnóstico são é a fadiga, sudorese noturna, perda ponderal e até mesmo ataque de gota. Esplenomegalia (aumento do tamanho do baço) pode estar presente em 50%-90% dos pacientes ao diagnóstico e pode causar sintomas. Complicações trombóticas e hemorrágicas são bem menos frequentes.

Hiperleucocitose, quando ocorre mais que 50.000/mm3 leucócitos, não costuma ser sintomatologia frequente devido ao fato das células serem pequenas, semelhantes às células maduras normais. Contudo em algumas situações o aumento expressivo dos leucócitos pode provocar hemorragias retinianas, priapismo, por exemplo. Progressão da doença levará maior severidade de sintomas denominados constitucionais, incluindo febre, sudorese noturna, perda ponderal sangramentos e dores ósseas.

A partir de avaliação médica rotineira é possível notar alterações do hemograma que levam a suspeição da LMC. Foto por Gustavo Fring em Pexels.com

Ao se realizar exame sanguíneo é esperado a leucocitose às custas de neutrofilia, mais de 50% dos pacientes apresentam ao diagnóstico com 100.000 leucócitos/mm3 ou mais. Blastos não é um achado notado rotineiramente ao diagnóstico. Anemia pode estar presente em cerca de metade dos pacientes e trombocitose (aumento de quantidade de plaquetas) é um achado também comumente relatado em aproximadamente 1/4 dos casos no momento do diagnóstico.

Outras alterações bioquímicas podem ocorrer e aí destacam-se aqueles marcadores de proliferação como é o caso do ácido úrico e dos níveis de (desidrogenase láctica) LDH.

Diagnóstico

A partir da suspeita clínica e dos achados de exames preliminares o diagnóstico é feito a partir da confirmação da presença do gene BCR-ABL1, seja por meio de citogenética convencional FISH ou biologia molecular. A citogenética é confirmatória em 95% dos caos, sendo que o restante é diagnosticado por meio de exames moleculares.

Por ser uma doença genética a LMC tem por grande exame diagnóstico a avaliação citogenética. Seja por meio de exames cariotípico, do FISH ou por meio da biologia molecular

Veja mais sobre exames comumente solicitados pelo hematologista!

Tratamento

Tratamento com inibidores tirocino cinase é a primeira opção.

  • Primeira geração
    • Imatinibe
  • Segunda geração
    • Dasatinibe
    • Nilotinibe
    • Bosutinibe
  • Terceira geração
    • Ponatinibe – unicamente aprovado para 2ª ou mais linhas terapêutica ou quando há mutação T315I.
O tratamento é contínuo e não deve ser interrompido nunca sem a autorização do médico!

Todas essas moléculas são administrados por via oral, ou seja, sem agulhas, sem quimioterapias agressivas e sem necessidade de transplantes, algo que era a orientação terapêutica até alguns anos atrás. Ainda hoje é necessário, em poucos casos, a administração de interferon que é por meio de injeções subcutâneas, mas isso é exceção.

Monitoração

Não basta apenas tratar o paciente portador de LMC, é necessário também acompanhar rigorosamente a evolução. Assim nos pacientes o objetivo é provocar a melhor resposta possível, que é a a ausência de evidência de doença, por meio da negatividade dos exames moleculares, o que denomina-se de Resposta Molecular Completa. Sabe-se que muitas vezes a ausência de evidência não significa a evidência da ausência, assim exames negativos não significam o fim do tratamento. Dessa forma mesmo com resultados excelentes o tratamento não deve ser suspenso, nem relaxado. Há estudos que apontam segurança na suspensão de tratamentos baseando-se no seguimento de etapas bem rígidas e específicas para isso além clar de ter que se manter o acompanhamento laboratorial rigoroso, a fim de detectar possíveis recidivas, ou seja, o retorno da doença. Apesar de retornar em algumas situações o tratamento costuma ter boas respostas após a reintrodução do tratamento.

Felizmente o tratamento atual com os ITK permite afirmar que a causa de morte nos paciente portadores de LMC raramente é a própria LMC, bastante distinto daquilo de poucos anos atrás.

O seguimento do tratamento da LMC é por meio de exame molecular BCR-ABL no sangue periférico.

Concluindo…

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Publicado por Hemato na Web

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