O Que Significa Ferritina Alta na Saúde?

Ferritina Alta: O que este achado laboratorial significa para a sua saúde

A ferritina elevada é um achado cada vez mais comum em exames de rotina, gerando preocupação em muitos pacientes que chegam aos consultórios hematológicos temendo diagnósticos graves. Mas o que realmente significa este resultado e quando ele deve ser motivo de preocupação? Vamos entender melhor este importante marcador e suas implicações para a saúde.

O que é a ferritina?

A ferritina é uma proteína de armazenamento de ferro presente em praticamente todas as células do organismo, sendo mais abundante no fígado, baço e medula óssea. Ela funciona como um “cofre” que guarda o ferro não utilizado imediatamente pelo corpo, protegendo as células dos efeitos tóxicos do ferro livre e mantendo-o disponível para uso futuro.

Exames de rotina são a origem da investigação da ferritina elevada na maioria das vezes.
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No sangue, a ferritina reflete os estoques de ferro do organismo, sendo um dos marcadores mais importantes para a avaliação do metabolismo deste mineral essencial.

Quando a ferritina é considerada elevada?

Os valores de referência podem variar entre laboratórios, mas geralmente considera-se:

  • Homens: 30 a 300 ng/mL
  • Mulheres: 15 a 200 ng/mL

Valores acima destes limites são considerados elevados e merecem investigação. É importante ressaltar que mulheres em idade fértil tendem a apresentar valores mais baixos devido à perda menstrual de ferro.

Vídeo do Canal de Hematologia Hemato na Web sobre a Ferritina Alta

Principais causas de ferritina elevada

A elevação da ferritina pode estar associada a diversas condições:

1. Sobrecarga de ferro

  • Hemocromatose hereditária: Doença genética que aumenta a absorção intestinal de ferro, levando ao seu acúmulo em órgãos como fígado, coração e pâncreas.
  • Transfusões sanguíneas repetidas: Comum em pacientes com anemias crônicas como talassemia maior.

2. Processos inflamatórios – causa comum!

A ferritina é uma proteína de fase aguda, ou seja, aumenta em resposta a processos inflamatórios, tais como:

  • Infecções agudas e crônicas
  • Doenças autoimunes (artrite reumatoide, lúpus)
  • Neoplasias

3. Lesão celular – causa comum!

  • Doenças hepáticas (hepatites, esteatose, cirrose)
  • Alcoolismo crônico
  • Lesão muscular extensa

4. Outras causas

  • Síndrome metabólica e diabetes
  • Hipertireoidismo
  • Uso de certos medicamentos
  • Dieta excessivamente rica em ferro

Dados epidemiológicos e curiosidades

  • Aproximadamente 1 em cada 10 adultos tem níveis elevados de ferritina em exames de rotina.
  • A hemocromatose hereditária afeta cerca de 1 em cada 200-300 pessoas de ascendência europeia, mas muitos casos permanecem sem diagnóstico.
  • Estudos recentes mostram que até 30% dos pacientes com diabetes tipo 2 apresentam ferritina elevada.
  • A ferritina pode aumentar em até 100 vezes seu valor durante processos inflamatórios agudos, funcionando como um mecanismo de defesa que sequestra ferro para dificultar o crescimento bacteriano.
  • Em idosos, níveis moderadamente elevados de ferritina são mais comuns e nem sempre indicam doença.
  • Curiosamente, o exercício físico intenso pode aumentar temporariamente os níveis de ferritina devido à inflamação muscular.

Como a ferritina elevada deve ser investigada?

A investigação da ferritina alta segue uma abordagem sistemática:

  1. Histórico médico completo: Avaliação de sintomas, histórico familiar, uso de medicamentos, consumo de álcool e padrões alimentares.
  2. Exames complementares:
    • Saturação da transferrina e ferro sérico (fundamentais para avaliar sobrecarga de ferro)
    • Hemograma completo
    • Enzimas hepáticas
    • Marcadores inflamatórios (PCR, VHS)
    • Exames para doenças específicas, conforme suspeita clínica
  3. Em casos selecionados:
    • Testes genéticos para hemocromatose (mutações no gene HFE)
    • Ressonância magnética hepática para quantificação de ferro
    • Biópsia hepática

Tratamento da ferritina elevada

O tratamento depende fundamentalmente da causa:

  • Hemocromatose e sobrecarga de ferro: Flebotomias (retirada periódica de sangue) para reduzir os estoques de ferro. Em casos específicos, medicamentos quelantes de ferro.
  • Processos inflamatórios: Tratamento da doença de base que está causando a inflamação.
  • Doenças hepáticas: Manejo específico da condição hepática e medidas como abstinência alcoólica.
  • Síndrome metabólica: Mudanças no estilo de vida, com foco em dieta equilibrada e exercícios físicos.
  • Causas dietéticas: Orientação nutricional para adequação da ingestão de ferro.

Quando se preocupar?

Uma ferritina elevada isoladamente nem sempre indica doença grave, mas valores persistentemente altos ou muito elevados (acima de 1000 ng/mL) merecem investigação cuidadosa, especialmente quando acompanhados de:

  • Fadiga inexplicada
  • Dor abdominal
  • Alterações articulares
  • Diabetes ou alterações da glicemia
  • Arritmias cardíacas
  • História familiar de hemocromatose

O que fazer?

A ferritina elevada é um achado laboratorial que requer interpretação cuidadosa e contextualizada. Sua avaliação não deve ser feita isoladamente, mas sim como parte de uma investigação clínica completa. O seguimento médico adequado é fundamental para o diagnóstico correto e manejo apropriado.

Se você recebeu um resultado de ferritina alta, não entre em pânico – na maioria das vezes, há explicações tratáveis. Contudo, nunca deixe de buscar orientação médica especializada para uma avaliação individualizada. O hematologista é o profissional mais indicado para conduzir a investigação e propor o melhor plano de acompanhamento e tratamento para cada caso específico.

A saúde é um bem precioso e compreender os sinais que nosso corpo nos envia, incluindo alterações em exames laboratoriais, é parte importante do autocuidado responsável e consciente.

Publicado por Hemato na Web

Esse o Canal de Hematologia - Hemato na Web, dedicado a divulgação científica e apresentação de temas interesaantes e relevantes que envolvam a Hematologia ou a Medicina em geral. O conteúdo é editado por mim, que sou hematologista e mestre em ciência da saúde.

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